quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

há uma razão para o que sou hoje





Lembro-me perfeitamente da infância feliz que eu vivi, repleta de liberdade da qual guardo sensações, episódios, sabores, paisagens, coisas que podiam perfeitamente fazer parte de ilustrações do livro da Anita. Claro que foi possivel tudo isto graças ao meu Norte, Trás os Montes, foi a chave para tudo isto, pois tenho a certeza que nas cidades as coisas mudavam e bem de figura.
Mas tudo isto para chegar a um ponto essencial, as crianças de hoje em dia parecem programadas, não fazem barulho, (a não ser as birras nos hipermercados e afins), não resmungam para brincar na rua... Passam a vida no computador, e aprendem primeiro a manusear o comando da playstation do que a falar em condições. Vão ao parque aos Domingos pela mão dos pais, e contentam-se com isso, tal como os cães quando os levam para um descampado onde podem correr sem trela. Depois de meia hora no parque, imploram para ir para casa ver desenhos animados, e desculpem-me a expressão, desenhos animado homossexuais (não que tenha algo contra orientações sexuais diferentes) mas é a realidade, O Ruca, o Ben Ten, a Dora Exploradora, O Noddy, o Bob o construtor, são tão sem magia, com uma voz fininha e que fazem tudo tão certinho que não dão espaço as crianças para sonhar mais além e criarem heróis, porque convenhamos, ninguém quer um herói com aspecto de doente que passa a vida a fazer queixinhas e a ser levado ao colo pela mão. Já para não falar das meninas que crescem com biblias Hello Kitty e aos dez anos já sabem tudo sobre maquilhagem. Já para não falar que os homens e mulheres do amanhã, crescem com a ideia que brincar na rua traz doenças, há muitos micróbios que são bichos maus e blablablá.
Então é assim, quando eu era criança tinha uma bicicleta, não usava capacete, joelheiras e esses kits completos, para além de dona dela era também a mecânica, sabia concertar a corrente, mudar a câmara de ar e afinar os travões, jogava á bola descalça, manchava a roupa com as amoras e subia ás arvores sem grande dificuldade, os pássaros não eram pássaros, e distinguia várias espécies. Apanhava bicharada em poços e companhia, não tinha medo de qualquer bicho, e vocês ralam-se com micróbios. Os meus joelhos ralavam-se muitas vezes, doía e passava num instante, bebia água das fontes, da mangueira, de nascentes, e nessa altura não havia aquelas coisas de "água imprópria para consumo", as abelhas eram o pior que podia encontrar mas nem essas estúpidas me travavam, de vez em quando lá picavam, mas depois de passar lá estava eu a enfrenta-las de novo. Sabia-se se um romance ía dar certo através do bem-me-quer-mal-me-quer, e não através do status do facebook. Quando não havia bola, e nem todos tinham bicicleta, joga-se ás escondidas, ao apanha, á macaca, ao macaquinho do chinês. Comia-se fruta da árvore(sim porque não vem dos supermercados) e as florestas e campos eram locais perfeitos para descobrir coisas... Cabanas, e casinhas eram autênticas iniciações de arquitectura, e deixavam-nos tão orgulhosos quando estavam prontas. Não haviam armas de plástico que substituíssem uma fisga ou uma espada bem feitinha pelo avô. E brincávamos ao quente e frio durante horas a fio, com tanta competitividade que parecia que andávamos realmente á caça do tesouro. Os ramos enormes dos chorões(uma árvore para quem não sabe, porque as árvores não são todas árvores), eram as hienas de uma selva inventada. Era um bocado Maria rapaz, mas o cor de rosa sempre fez parte das minhas cores favoritas, e as bonecas, os livros de histórias e tudo isso, eu usava sim, brincava muito nos dias de chuva que não se podia sair de casa, ou "na hora do calor" que a minha avó me obrigava muitas vezes a ficar em casa, porque dizia que o sol me podia fazer tão mal que podia ficar maluca, mas assim que podia escapava-me, porque ás vezes a hora do calor durava uma tarde inteira. ía para casa obrigada, e não me chamavam pelo telemovel. De manhã via os desenhos animados, e garanto que não eram homossexuais, eram heróis que lutavam e davam o litro para defender o que estava certo, por isso sabia-se perfeitamente a diferença entre o bem e o mal, até as raparigas eram umas guerreiras, nada como agora, que são cantoras famosas, que só pensam em namorar, têm telemovel e são as populares da escola. Não, as heroínas do antigamente tinham cavalos, espadas, sabres mágicos, eram duras, umas gajas ás direitas. Até as do Dragon Ball, a Kika não estava com meias medidas e sempre que tinha que dar umas boas chapadonas no filho dava. Não se deixava fazer. Os desenhos animados eram ídolos, via-os com empenho e depois tentava incorpora-los nas brincadeiras, lembro-me do Dragon Ball, das Navegantes da Lua, dos Pokemons, dos Digimons, dos Power Rangers, do Samurai X, da Starla e as joias encantadas, e tantos, tantos outros. Lembro-me de ver a Ana Malhoa a cantar o sabes que começou no A e a prometer que o Buéréré ía voltar em Abril, e já vieram não sei quantos meses de Abril, e a única coisa que eu vejo é a Ana a cantar "eu hoje sinto-me sexy" e buéréré que é bom nada, és uma porca Ana, e não é por usares essas roupas, é por me teres enganado quando eu tinha oito anos, por isso estimo que fiques gorda e que não caibas nos teus macacões tigresa.
Falando agora de música, lembro-me de naquela altura ouvir os Onda Choc, as meninas do Zip Zap, os Super Teen, e agora vêem-me com o Justin Bieber ? Mais uma vez não vou querer falar em tendências homossexuais, mas alarmem-se, porque dali não vão sair homens não...
Podia escrever um livro sobre o quanto foi bom ser criança, e apesar de ter sido fã de tétris e do jogo dos pokemons, eu não resumiria a minha infância ao contrário dos miúdos de agora, em vídeojogos. Comia sopa sem reclamar, os douradinhos eram douradinhos e não ricos em Ómega três e eu nunca sofri com isso, os Chocapics eram ricos em chocolate e não "Nova receita com menos açúcar", e pão com manteiga não era coisa de pobre, as batatas fritas traziam tazos, raspadinhas e autocolantes do star wars que eram 3D . Havia tatuagens(sem ser do Noddy) nos bolicaos e chipicaos, e quantas mais tivéssemos mais fixes nos sentíamos. A corda e o elástico eram as brincadeiras mais femininas que havia, e ir ao dentista significava comer gelados, por isso toda a gente queria ir. A coca-cola fazia bem á barriga, e era uma boa desculpa.
No meu tempo se algum miúdo leva-se pancada na escola, os pais não iam á escola aramar um escândalo ou metiam o puto na psicóloga por causa do bullyng, não, eles diziam -"então mas tu não te sabes defender? Se ele te der uma dás duas", e os gordos eram gordos, os caixas de óculos eram caixas de óculos, e os trinca espinhas eram trinca espinhas, e os pretos pretos e os ciganos eram piolhosos, e ninguém se ofendiam com isso, nem ficava com o psíquico magoado, respondiam -"quem diz é quem é, cala a boca jacaré" e pronto a coisa resolvia-se, sem porem vídeos sofredores no youtube e sem se suicidarem. Por isso, maior parte das pessoas que cresceram neste tempo sabem o que são e defender-se de quase tudo que implique maldade humana.
E eu podia escrever um livro sobre o quanto foi bom ser criança, mas fico-me por aqui, só tenho pena que a pressa que os meninos de agora têm em crescer não os deixe sonhar, ter heróis como deve ser e viver os dias com tanta euforia sem ser em frente a uma televisão. Agora a sério, a culpa é dos pais, arranjem tempo que os Domingos no parque não contam, e não alimentem os vossos filhos de tecnologia, mostrem-lhe as coisas como são, deixem brincar na rua, agora já nem há piolhos, e tenham cuidado com os desenhos animados e essas bandas que por aí andam, porque dizem que possivelmente o novo Papa será um homofóbico, que apoia a pena de morte para homessexuais, e com esses exemplos que vocês compram aos vossos filhos, a terra daqui a una anos está deserta e não é culpa da poluição, fica a dica.

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