Ela estava ali apática e fixada no que se passava na rua . O café servido em chávena grande ía arrefecendo enquanto ela continuava a mirar a avenida pela vidraça meia embaciada . Repetia o mesmo ritual todos os dias. Há vários dias, semanas, meses... Os demais não notavam que o fazia , mas ele notou . Com o peito carregado de coragem foi até ela e sem que desse tempo para se arrepender questionou-a sobre o porquê de todos os dias admirar a rua com tanto empenho . Embalada pelo tom amigável ou admirada por alguém se importar com o que fazia, respondeu-lhe que estava habituada a observar tudo . Que gostava de verificar o conjunto de cores, as texturas, as combinações da natureza, o efeito dos dias de sol e dos tempestuosos, como pintam de forma tão diferente a tela dos dias. Isso ajudava-a no seu trabalho. Acrescentou. Indignado, interrogou-a sobre tal tarefa. E ela não se poupou a explicações. Sou fotógrafa . -Fotografo as pessoas mais bonitas . Tenho que tirar o melhor delas. Traduzir para uma imagem o cenário de perfeição. Preciso de saber que cores querem ver, que texturas funcionam, preciso da luz certa, harmonia e beleza. E a resposta está lá fora como podes ver. Tenho que dar uma fotografia que seja um dia de sol e não um cinzento. Se funcionar, a modelo é fabulosa, linda. Se não funcionar, o meu trabalho não foi bem feito. Ele pensou que ela não se sentia valorizada pelo que acabara de dizer, mas rápido o elucidou. -Gosto do que faço. Gosto de mostrar ao mundo o que querem ver. Por vezes verdadeiras belezas cobertas de horrorosidade transformam-se em obras de arte, vejo tudo lá fora, na natureza, na urbanização. Saio de mim, e encontro a resposta ao que quero mostrar.
-Então e dentro de ti não há nada que queiras mostrar? questiona
-Não. Não há nada de encantador, a não ser a recompensa de ver o meu trabalho bem feito. Durmo descansada. É tentador. É do que gosto.
Ele prosseguiu entusiasmado...
-Imagina tu, que um dias destes deixas de olhar lá para fora e entras em ti mesma, arriscas, fazes combinações como as que vês lá fora na tua vida e de repente tens cores, tens texturas, perfumes. Tens um tela pintada na tua vida. Mas atenção haverá dias de verdadeira tempestade, mas os de sol radiante como nunca viste compensarão qualquer um dos mais escuros. Afinal de contas quem não gosta de um clima tropical ?
Ficou abismada, engoliu em seco e fixando-o retorquiu:
- E como dormiria sossegada com essas tempestades?
- Não dormirias, darias voltas na cama, mas no dias solarengos que terias em triplo na tua vida, terias sonhos, tão valiosos como o pote de ouro que está na ponta do arco-íris.
Ela levantou-se dirigindo-se para a porta. Ele seguiu-a já cá fora, olhou-o de olhos bem abertos, e murmurou-lhe:
- Não sei se quero entrar dentro de mim, cá fora parece tudo mais encantador, é como se eu entende-se que eu nunca daria uma boa fotografia entendes?
E ali no meio da rua, por entre as cores, as texturas, as pessoas que se balançavam de um lado para o outro, ele abraçou-a e beijou-lhe os lábios, com suavidade, tal e qual e qual como se pegá-se num objecto de arte raro, que poderia quebrar-se. Ela paralisou, naquele exacto momento entrou dentro dela e não queria sair, nem que a seguir se adivinha-se uma tempestade. Só não sabia que aquele momento dava a mais perfeita fotografia. Mas havia quem soubesse, os olhos atentos, arregalados, cá fora na rua, que naquele momento queriam ser ela. Queriam estar no mundo dela. Havia alguém coberto de dias cinzentos, a desejar viver aquele dia de sol. A inveja. Porque enquanto se vive do mundo para o mundo somos só dias cinzentos. Quando entramos em nós, temos as nossas cores, a nossa construção de texturas e emancipação de felicidade, a inveja espreita . Ela está em todo o lado, a qualquer momento, basta estarmos num dia de sol, ela nasce, como nasceu ali aquele amor, fruto do acaso, do destino, anunciando dias solarengos. A inveja é que nem cartas de amor, ao iniciarmos uma carta, maçamos umas tantas folhas de papel que vamos jogando no chão a forma perfeita de iniciar. Ela amarrota o coração não o deixando voltar á sua forma original, joga as pessoas para uma realidade inexistente e começa sempre de uma forma perfeita para não se poder recuar. E tal como as cartas de amor, a inveja termina sempre com palavras de desespero, amargura e desejo. É ridícula tal como as cartas de amor o são, já o dizia Pessoa.
Isto só pode ser apaziguado quando se encontrar o momento perfeito de novo. As cartas de amor são geralmente saudosas, a inveja não tem saudade, ela existe porque deseja o que nunca teve.
Como disse, ela pode estar em qualquer lugar, a qualquer momento, quase até de mãos dadas connosco, só saberemos dela quando tivermos o tal sol. Ela só deixará de existir quando o seu portador entrar realmente dentro dele e descobrir que há realmente motivos para gostar do que tem dentro de si. Até lá nunca dará uma boa fotografia, nunca terá dias de sol, nunca será a peça de arte rara, nunca terá sonhos do pote do arco íris. Será apenas um papel enrugado no chão, riscado, espezinhado, que nunca chegou a ser nada. E tudo que os que optam por carregar a inveja são é nada .

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